ze-da-luz 

 

Ai! SE SÊSSE!...

Zé da Luz

 

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntin nós dois vivesse!
Se juntin nós dois morasse
Se juntin nós dois drumisse;
Se juntin nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá que eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o bucho do céu furasse?...
Tarvez que nós dois ficasse
tarvez que nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

 


 

O QUI É BRASÍ CABÔCO?

Zé da Luz

 

É um Brasí deferente
Do Brasí das capitá.
É um Brasí brasilêro,
Sem mistura de istrangêro,
Um Brasí nacioná!

 

É o Brasí qui não veste
Liforme de gazimira,
Camisa de peito duro,
Cum bituadura de ouro...
Brasí Cabôco só veste,
Camisa grossa de lista,
Carça de brim da "Polista"
Gibão e chapéu de couro!

 

Brasí Cabôco não come
Assentado nos banquete,
Misturado cum os hôme
De casaca e anelão...
Brasí Cabôco só come
O bode sêco, o feijão,
E as vêz uma paneláda,
Um pirão de carne verde,
Nos dias das inleição,
Quando vai servi de iscáda
Prôs hôme de pusição!

 

Brasí Cabôco não sabe
Falá ingrês nem francês,
Munto meno o purtuguês
Qui os outro fala imprestádo...
Brasí Cabôco não iscreve;
Munto má assina o nome
Prá votá, prumode os hôme
Sê Gunverno e Diputádo!

 

Mas porém, Brasí Cabôco,
É um Brasí brasilêro,
Sem mistura de istrangêro
Um Brasí Nacioná!

 

É o Brasí sertanêjo
Dos côco, das imboláda,
Dos samba, dos rialêjo,
Zabumba e caracaxá!

 

É o Brasí das vaquejada,
Do abôio dos vaquêro,
Do arranco das boiáda
Nos fechado ou tabulêro!

 

É o Brasí das cabôca
Qui tem os óio feiticêro,
Qui tem a bôca incarnada,
Como fruta de cardêro
Quando ela náce alêjáda!

 

É o Brasí das promessa
Nas noite de São João!
Dos Carro-de-bôi cantando
Pela bôca dos cocão!

 

É o brasí das cabôca
Qui cum sabença gunverna,
Vinte e cinco pá-de-birro
Cum a munfada entre as perna!

 

Brasí das briga de Galo!
Do jôgo do "Sôco-tôco"!
É o Brasi dos cabôco
Amansadô de cavalo!

 

É o Brasí dos cantadô,
Dêsses cabôco afamado,
Qui nos verso impruvisado,
Sirrindo cantáro o amô;
Cantando choráro as mágua;
-Brasí de Pelino Guéde,
De Ináço da Catinguêra,
De Ugulino do Texêra,
E Rumano da Mãe-d'água!

 

É o Brasí das cabôca,
Qui de noite se dibruça,
Machucando os peito virge
No batente das jinéla...
Vendo, os cabôco pachóla,
Qui geme, chora e saluça
Nas corda de uma vióla
Ruendo paixão, prú éla!

 

É êsse o Brasí Cabôco,
Um Brasí bem brasilêro,
Sem mistura de istrangêro
Um Brasí nacioná!

 

Brasí, qui foi, eu tou certo,
Argum dia discuberto,
Prú Pêdo Arves Cabrá !!!

 


 

A TERRA CAIU NO CHÃO

Zé da Luz

 

Visitando o meu sertão
que tanta grandeza encerra,
trouxe um punhado de terra
com a maior satisfação.

 

Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo
levá-lo no meu caixão.

 

Chegando ao Rio, pensei
guardá-lo só para mim
e num saquinho de brim
essa relíquia encerrei!

 

Com carinho e com cuidado
numa ripa do telhado,
o saquinho pendurei...

 

Uma doença apanhei
e vendo bem próxima a morte
lembrando as terras do norte
do saquinho me lembrei.

 

Que cruel desilusão!
As traças, sem coração
meterem os dentes no saco,
fizeram um grande buraco
e a terra caiu no chão.

 


 

A CACIMBA

Zé da Luz

 

Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra.

 

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia.

 

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê...

 

As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça...
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça...

 

Quando eu vejo éssa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá...

 

... Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!

 


 

AS FLÔ DE PUXINANÃ

Zé da Luz

(Paródia de As "Flô de Gerematáia" de Napoleão Menezes)

Três muié ou três irmã,
três cachôrra da mulesta,
eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.

 

A mais véia, a mais ribusta
era mermo uma tentação!
mimosa flô do sertão
que o povo chamava Ogusta.

 

A segunda, a Guléimina,
tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué critão
os oiá déssa minina.

 

Os ói dela paricia
duas istrêla tremendo,
se apagando e se acendendo
em noite de ventania.

 

A tercêra, era Maroca.
Cum um cóipo muito má feito.
Mas porém, tinha nos peito
dois cuscús de mandioca.

 

Dois cuscús, qui, prú capricho,
quando ela passou pru eu,
minhas venta se acendeu
cum o chêro vindo dos bicho.

 

Eu inté, me atrapaiava,
sem sabê das três irmã
qui ei vi im Puxinanã,
qual era a qui mi agradava.

 

Inscuiendo a minha cruz
prá sair desse imbaraço,
desejei, morrê nos braços,
da dona dos dois cuscús!

 


 

CONFISSÃO DE CABÔCO

Zé da Luz

 

Seu duotô, sou criminoso.
Sou criminoso de morte.
Tou aqui pra mim intregá.
Voimicê fique sabendo:
- Quando a muié traz a sorte
De atraiçoá o isposo
Só presta para se matá.

 

Nunca pensei, seu doutô
Qui a mão nêga do distino,
Merguiasse as minhas mão
No sangue dos assarcino!

 

Vô li pidí um favô
Ante de vossamercê
Mim butá daqui pra fora:
- É a licença do doutô
Pr'eu li contá minha histora.

 

Sinhô dotô delegado,
Digo a vossa sinhuria
Qui inté onte fui casado
Cum a muié qui im vida
Se chamô ROSA MARIA.

 

Faz dez mês qui se gostemo,
Faz oito qui fumo noivo
Faz sete qui nós casêmo.

 

Nós casêmo e nós vivia
Cuma pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de filicidade!

 

Pras banda qui nós morava,
No lugá Chã da Cutia,
Morava tombém um cabra
Chamado Chico Faria.

 

Esse cabra, antigamente,
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro, inté a sê noivo,
Mas num fizero a "introza"
Do casamento, prumode
Mané Uréia de bode,
Qui era padrim de Maria
Tê dismanchado essa prosa.

 

Entoce, o Chico Faria,
Adispois qui nós casêmo,
In cunversa, as vez dizia,
Qui ainda mi dava fim
Pra se casá cum Maria.

Dessa coisa eu sabia,
Mas nunca dei importança.

 

Tinha toda cunfiança
Na muié qui eu tanto amava,
Ou mais mió, adorava...
Cum toda a minha sustança!

 

Dispois disso, o meu custume
Era vivê trabaiando
Sem da muié tê ciume.

 

A muié pru sua vez
Nunca me deu cabimento
Deu pensá qui ela fizesse
Um dia um farcejamento.

 

Mas, seu doutô, tome tento
No resto da minha histora,
Qui o ruim chegô agora:

 

Se não me farta a mimora,
Já faz assim uns três mêis,
Qui o cabra, Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quage sempre, mais das vêz,
Avistava o meu rancho.

 

Puralí, discunfiado
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo qui o marvado
Tentava a minha muié.

 

Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia!
Pru derradêro eu já tava
C'a mosca detrás da uréia.

 

Os tempo foi se passando
E o meu arriceiamento
Cada vez ia omentano.

 

Seu dotô, vá iscutano:

 

Onte, já de tardezinha
O meu cumpade, Quinca Arruda,
Mi chamô pra nós dança
Num samba - lá na Varginha,
Na casa do mestre Duda.

 

Mestre Duda é um cabôco,
Um tocado de premêra.
É o imboladô de côco
Mió daquela rebêra.

 

Entonce Rosa Maria,
Sempre gostou de samba,
Mas, porém, de tardezinha
Me disse discunfiada,
Qui pru samba ela não ia,
Qui tava munto infadada,
Percisava se deita...

 

Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié!

 

Dispois qui tomei café,
Cuage puro sem mistura,
Cum a faca na cintura
Fui pru samba, fui sambá.

 

Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era qui tava lá?

 

O cabra Chico Faria.
Qui quano foi me avistando,
Foi logo mi preguntando:
- Cadê siá dona Maria,
Num veio não, pra dançá?

 

- Não sinhô. Ficô im casa.
Pru cabôco arrispondí.

 

Senti, entonce uma brasa
Queimano meu coração,
Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha maginação.

 

Perdí o gosto da festa
E dançá num pude não.

 

O cabra, pru sua vez
Num dançava, seu doutô.
De vez im quando me oiva
Cum um oiá de traidô.

 

Meia noite, mais ou meno,
Se dispidino do povo
Disse: - Adeus, qui eu já vô.

 

Quando ele se arritirô,
Eu tombem me arritirei
Atraiz dele, sim sinhô.
Ele na frente, eu atrais.
Se o cabra andava ligêro,
Eu andava munto mais!

 

Noite iscura qui nem breu!

 

Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu!

 

Sempre andando, sempre andando.
Ele na frente, eu atrais.

 

Já nem se iscutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda!

 

A noite tava mais preta
Qui a cunciênça de Judá!

 

Sempre andando, sempre andando.
Eu fui vendo, seu doutô,
Qui o marvado ia tumando
Direção da minha casa!

 

Minha casa!... Sim sinhô!

 

Já pertinho, no terrero
Eu mim iscundí pru detraiz
De um pé de trapiazêro.

 

Abaixadim, iscundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio, os ouvido,
Pra mió vê e ouvi
Qua era a sua intenção.

 

Seu doutô, repare bem:

 

O cabra oiando pra traiz,
Do mermo jeito, qui faiz
Um ladrão pra vê arguém,
Num tendo visto ninguém,
Na minha porta bateu!

 

De lá de dentro uma voiz
Bem baixim arrispondeu...

 

Ele entonce, cá de fora:

 

- Quem ta bateno sou eu!

 

De repente abriu-se a porta!

 

Aí seu doutô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô...

 

No iscuro uma voiz falô:

 

- Taqui, seu Chico, essa carta,
Qui a tempo tinha iscrivido
Pra mandá pra voismicê.
Pru favô num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa
Tem munto tempo pra lê.

 

Quando minhas oiça ouviu,
As palavra qui Maria
Dizia pru disgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quage cuma loco,
Ou mio, cumo um cabôco
Quando ta chêi de isprito!

 

Dum sarto, cumo um cabrito,
Eu tava nos pés do cabra
E sem querer dei um grito:

 

- Miserave! E arrastei
Minha faca da cintura.

 

Naquela hora dotô,
Eu vi o Chico Faria,
Na bêra da sipurtura!

 

Mas o cabra têve sorte.

 

Sempre nessas circunstança
Os home foge da morte.

 

Correu o cabra, dotô
Tão vexado, qui dêxou
A carta caí no chão!

 

Dei de garra do papé,
O portadô da traição!

 

Machuquei nas minha mão,
A honra, douto, a honra
Daquela farsa muié!

 

Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crer,
De num tê prindido a lê.
Nas letra alí iscrivida
O qui dizia Maria
Pru marvado traidô.

 

Tive pena, sim sinhô.
Mas, qui haverá de fazê
Se eu nunca prindí a lê?

 

Maria mi atraiçuô!

 

Essa muié qui um dia,
Juêiada nos pé do artá
Jurou im nome de Deus
Qui inquanto tivesse vida,
Haverá de mim honrá
E mim amá cum todo amo.

 

Cum perdão do seu doutô.
Quando eu vi a miserave
Na iscurideza da noite
Dos meu oio se iscondê
Sem dêxá nem sombra inté
Entrei pra dentro de casa
Pra mi vingá da muié.

 

Douto, qui hora minguada!
Maria tava ajuêiada,
Chorando, cum as mão posta
Cumo quem faz oração.
Oiando pra eu pedia,
Pelo cali, pela osta,
Pru Jesus crucificado,
Pelo amo qui eu li amava
Qui num fizesse isso não.

 

Eu tava, doutô, eu tava
Cego de raiva e paixão.

 

Sem dizê uma palavra,
Agarrei nas suas mão,
Levantei ela pra riba
E interrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Pru riba do coração!

 

Sarvei a honra, doutô,
Sarvei a honra, apois não!

 

Dispois qui vi a Maria
Caí sem vida no chão,
Vim fala cum vosmicê,
Vim cunfessá o meu crime
E mim intregá as prisão.

 

Se o sinhô num acredita
Se eu sô criminoso ou não,
Tá aqui a faca assarcina
E o sangue nas minhas mão.

Cumo prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.

 

Li peço um grande favô:

 

Ante de vossa-sinhuria
Mi mandá lá para prisão
Me lêia aqui essa carta
Pr'eu sabê cumo Maria
Perparava essa trição!

 

A CARTA

 

"Seu Chico:

 

Chã da Cutia.

 

Digo a vossa senhoria
Que só lhe escrevo essa carta
Pru senhor ficar sabendo
Que eu não sou a mulher
Que o senhor tá entendendo.

 

Se o senhor continuar
Com os seus disbiques atrevidos
O jeito que tem é contar
Tudo, tudo a meu marido.

 

O senhor fique sabendo
Que com seu discaramento,
Não faz nunca eu quebrar
O sagrado juramento
Que eu jurei nos pés do altar,
No dia do casamento.

 

Se o senhor é inxirido,
Encontrou u'a mulher forte,
O nome do meu marido
Eu honro até minha morte!

 

Sou de vossa senhoria,

 

Sua criada.

MARIA. "

 

- Doutô! Doutô mi arresponda
O qui é qui eu tô ouvindo?
Vosmicê leu a carta,
Ou num leu, ta mi inludindo?

 

- Doutô! Meu Deus! Seu doutô,
Maria tava inucente?
Me arresponda pru favo!

 

Inocente! Sim, senhor!

 

Matei Maria inucente!

 

Pru que, seu doutô, pru que?

 

Matei Maria somente
Pruque num aprendi a lê!

 

Infiliz de quem num leu
Uma carta de ABC.

 

Magine agora o doutô,
Quanto é grande o meu sofrê!

 

Sou duas veiz criminoso,
Qui castigo, seu doutô!

 

Qui mizera! Qui horrô!
Qui crime num sabê lê!

 


 

MID: Feira de mangaio - Sivuca   

 

 
 
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