marco

 

MARCO DI AURÉLIO

 

http://www.marcodiaurelio.com

 

Escritor e cordelista, autor de vários folhetos de Literatura de Cordel, feitor de poemas e militante da Academia Paraibana de Poesias. Entre outras publicações, é autor do livro de contos autobiográficos sobre as coisas do sertão "Com-Caso".


E-mail: marcodiaurelio@uol.com.br

 


 

TRIBUTO A SIVUCA

 

Marco di Aurélio

Se ainda falta no céu
animador de terreiro
escancarem as porteiras
acenda todo luzeiro
pois subiu do meu nordeste
o melhor cabra da peste
o maior dos sanfoneiros.

 

Uma vida Severina
num Sivuca, amoitada
uma saga nordestina
de poesia bem regada
na ponta de cada dedo
se arreganhava o segredo
numa sanfona rasgada.

 

Passarim calava o bico
juriti sentava os pés
procissão deixava o santo
por conta de outros fiéis
pra ouvir um outro terço
feirante perdia o preço
por qualquer vinte mil réis.

 

Era assim, Mestre Sivuca
cumpridor de seu destino
forrozeiro de primeira
que nunca bateu o pino
cantou nossa natureza
musicou com mais beleza
o vivente nordestino.

 

Nosso Senhor lhe conceda
um lote bem na esquina
um juazeiro frondoso
c´uma sombra assim bem fina
uma sanfona branquinha
naquela luz da tardinha
de fundo uma sarafina.

 

Que deixe de vez em quando
um sustenido escapar
escorregar mundo abaixo
chegar no lado de cá
pra gente sentir saudade
num forró de qualidade
do melhor que ainda há.

 

Nosso Senhor de bondade
não é pecado pedir
deixe outros dez dedinhos
doidinhos pra se bulir
pra acompanhar o Sivuca
Gonzaga tá de mutuca
querendo também agir.

 

Agora o céu tá completo
chegou forró e baião
s´isso for sinal dos tempos
não falta mais nada não,
quem disse que a terra presta
que outro som se encabresta
sem Sivuca e Gonzagão?

 


 

EU NUNCA ESQUECI VOCÊ

 

Marco di Aurélio

Nem mesmo fechando os olhos
nem também na lua cheia
nem flores que vem de molhos
acordo e logo lhe vejo
no teto desse meu mundo
teus olhos verde profundos
miragem vale de espelho
e o tempo fica vermelho
no espaço que imagino
pergunto: é meu destino
sofrer sem te alcançar
verter meu sangue ladino
saindo pra passear
pensando haver de jeito
um outro amor tão perfeito
será que no mundo há?

 

Me diga eu quero ouvir
de tua boca com alma
se tua vida destina
se tua paixão me salga
se teu amor me abraça
s'ele se entrega de graça
se não é coisa mofina.

 

Corrija o meu entender
minha paixão preferida
e não me deixe morrer
pensando em ter mais vida
pois o viver sem amar
é não viver é penar
é vida não possuída.

Abrace o nosso destino
se o seu amor for o meu
esqueça de quem lhe falo
ess'outro amor já morreu
me olhe dentro da alma
me diga com toda calma
que seu amor é só meu.

 


 

SABER DE NÓS

 

Marco di Aurélio

 

Saber de mim
é saber pouco
pois é de mim
saber-se o outro
quando bem sei
que lendo a lei
sou só um louco.

 

Saber de ti
sei que existo
sabendo nós
sabemos misto
querendo a dois
sabemos pois
desse imprevisto.

 

Não sabem eles
nossa loucura
eu que escrevo
essa estrutura
e tu não vês
quando me lês
não temos cura.

 


 

HÁ DE SE TER NESTA TERRA

 

Marco di Aurélio

 

mais coração
menos guerra
pra se viver a promessa
de um presente vivido
que de tão bom, recebido
se faça dele uma festa
que não se dá, nem se empresta
mas que se faz derramado
como se rio assim fosse
feito de leite e arroz-doce
pr'um penitente escutado.

 

Que nesta terra assim haja
um manto que bem nos cubra
sem carecer ser de seda
mas que no frio da chuva
nos faça olhar a vereda
com olhos de correnteza
e almas de servidão
ao soro da natureza
que cai com sua leveza
alimentando o sertão.

 


 

SEM TER TEMPO

 

Marco di Aurélio

 

Passar o tempo
sem prazo e sem ter tempo
vereda com seu vento
mirar o sol se pôr.

 

E sem calor
olhar o firmamento
e sem contar o tempo
contar estrelas.

 

E assim ao vê-las
deitado no relento
e sem contar o tempo
o tempo se ajoelha.

 

Passar o tempo
é só sentir o vento
voar no pensamento
no leito da vereda.

 

Leito de seda
forrado de areia
os grãos também passeiam
como as estrelas.

 

E sem ter tempo
meu tempo assim se finda
sem ter letra divina
sem letra pra meu tempo.

 


A música de fundo é Take five and six,

uma homenagem do meu amigo Maestro

Edson Rodrigues a Paul Desmond,

autor de Take Five.

 

 
 
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