AUTO-RETRATO

Lya Luft

 

Alguém diz que sou bondosa:

está tão enganado que dá pena.

Alguém diz que sou severa,

e acho graça.

Não sou áspera nem amena:

estou na vida como o jardineiro

se entrega em cada rosa:

corte, sangue, dor e aroma,

para que a beleza fique na memória

quando a flor passa.

 

(Amar é lidar com os espinhos

De quem ama por inteiro:

Com força, não com fraqueza.)

 


 

AVISO

 

Lya Luft

 

Se me quiseres amar,

terá de ser agora: depois

estarei cansada.

Minha vida foi feita de parceria com a morte:

pertenço um pouco a cada uma,

pra mim sobrou quase nada.

 

Ponho a máscara do dia,

um rosto cômodo e simples,

e assim garanto a minha sobrevida.

 

Se me quiseres amar,

terá de ser hoje:

amanhã estarei mudada.

 


 

DANÇA LENTA

 

Lya Luft

 

Não somos nem bons nem maus:

somos tristes. Plantados entre chão

e estrelas, lutamos com sangue,

pedras e paus, sonho

e arte.

 

Nem vida nem morte:

somos lúcida vertigem,

glória e danação. Somos gente:

dura tarefa.

Com sorte, aqui e ali a ternura

faz parte.

 


 

MEU JEITO

 

Lya Luft

 

Quando pareço ausente, não creias:

hora a hora meu amor agarra-se aos teus braços,

hora a hora meu desejo revolve teus escombros,

e escorrem dos meus olhos mais promessas.

 

Não acredites nesse breve sono;

não dês valor maior ao meu silêncio;

se leres recados numa folha branca,

não creias também: é preciso encostar

teus lábios nos meus lábios para ouvir.

 

Nem acredites se pensas que te falo:

palavras

são meu jeito mais secreto de calar.

 


 

ÔNUS

 

Lya Luft

 

A esperança me chama,

e eu salto a bordo

como se fosse a primeira viagem.

Se não conheço os mapas,

escolho o imprevisto:

qualquer sinal é um bom presságio.

 

Seja como for, eu vou,

pois quase sempre acredito:

ando de olhos fechados

feito criança brincando de cega.

Mais uma vez saio ferida

ou quase afogada,

mas não desisto.

 

A dor eventual é o preço da vida:

passagem, seguro e pedágio.

 


 

PERDER, GANHAR

 

Lya Luft

 

Com as perdas só há um jeito:

perdê-las.

Com os ganhos,

o proveito é saborear cada um

como uma fruta boa da estação.

 

A vida, como um pensamento,

corre à frente dos relógios.

O ritmo das águas indica o roteiro

e me oferece um papel:

abrir o coração como uma vela

ao vento, ou pagar sempre a conta

já vencida.

 


 

ROSTO COM DOIS PERFIS

 

Lya Luft

 

Renuncio às palavras

e às explicações.

Ando pelos contornos,

onde todos os significados

são sutis, são mortais.

 

Não quero perder o momento

belo. Quero vivê-lo mais,

com a intensidade que exige a vida:

desgarramento e fulguração.

 

Então me corto ao meio e me solto

de mim:

a que se prende e a que voa,

a que vive e a que se inventa.

Duplo coração:

a que se contempla e a que nunca

se entende,

a que viaja sem saber se chega

– mas não desiste jamais.

 


 

TODAS AS ÁGUAS

 

Lya Luft

 

Quando pensei que estava tudo cumprido

havia outra surpresa: mais uma curva

do rio, mais riso e mais pranto.

 

Quando calculei que tudo estava pago,

anunciaram-se novas dívidas e juros,

o amor e o desafio.

 

Quando achei que estava serena,

os caminhos se espalmaram

como dedos de espanto

 

em cortinas aflitas. E eu espio,

ainda que o olhar seja grande

e a fresta pequena.

 


 

MID: As rosas não falam – Cartola


 

 
 
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