ESPERA

 

J. G. de Araújo Jorge

 

Se tivesses mandado uma palavra - "Espera"!
Sem mais nada, nem mesmo explicado até quando,
Eu teria ficado até hoje esperando...
- Era a eterna ilusão de que fosses sincera -

 

Que importaria a vida, o sol, a primavera,
Se eras a vida, o sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandando uma palavra - "Espera"!
Eu teria ficado até hoje esperando...

 

Não mandaste. Tu nada disseste, e eu segui,
Sem saber que fazer da vida que era tua,
Procurando com o mundo esquecer-me de ti

 

E afinal o destino, irônico e mordaz
Ontem, fez-me cruzar com teu olhar na rua,
Ouvi dizer-te, "Espera" e ser tarde demais!

 


 

PROSTITUTA VIDA

 

Carlos Gama

 

Na ausência de vida,
que se enxerga,
por detrás dos
olhos baços.

 

No desalinho dos ombros,
nos seios lassos,
no caminhar cansado,
economizando passos.

 

Na alma pesando,
bem mais que os anos,
nos sonhos faltando,
na ausência de planos.

 

Nos filhos perdidos,
na marra, no aborto,
dias mal vividos,
na área do porto.

 

Na falta de crença,
nos amores puros,
fruto dos anos
e sofrimentos duros.

 

No tempo passando,
na sua labuta,
ela desamando
a vida prostituta.

 


 

NÃO MUITO; ALGUÉM...

 

Carlos Gama

 

Não quero muito,
apenas alguém,
com quem dividir
o meu silêncio e
esta visão do céu
noturno e estrelado.

 

Alguém,
pra se deitar
comigo no chão
e ficar roçando
as solas dos seus
nos meus
pés cansados.

 

Alguém,
que saiba ou pense
saber entender
os sinais que enviam
estes três pequeninos
vaga-lumes que me
sobrevoam.

 

Alguém,
que saiba ir
indo e ouvindo
o cantar da areia
fofa e alegre sob
os nossos pés
que já passearam
as beiras d'água
chutando ondas
no caminhar.

 

Alguém,
que saiba ver
a lua boiando
na placidez
da maré mansa
que a embala
para ninar.

 

Alguém,
que, apenas,
não queira
mais que eu
e me aceite
tal qual
não me vejo
mas sou.

 

Alguém,
cujos anseios
não vão além
do prazer
de caminhar
a meu lado
pela praia
deserta e ao
fim do dia
queira, esse alguém,
apenas repousar
a meu lado,
juntando o suor
de nossos corpos
satisfeitos.

 

Alguém,
que possa
ser este meu sonhar...

 

Creio
que o que
me resta
é despertar.

 


 

DO VERBO AMAR

 

Carlos Gama

 

O tempo tenta, em vão, mostrar-me,
Você insiste e a maioria, também.
Eu me esforço mas, não basta.
E acabo convencido de que é
algo impossível, não está em mim,
amar como querem que eu faça
ou sinta; pressinto que é o fim.
Porém, eu sei e você sabe,
sabe até, mais que ninguém,
que eu sei amar mas é, também,
à minha maneira estranha,
para você, pois é impessoal.
Caminha livre, sem domínios,
está acima do bem e do mal.
Eu sei dele, alguma coisa;
dizem e afirmam as minhas
meninas ou meus velhos amigos,
escondidos, nos cantinhos,
nos desvãos da vida,
em seus jardins ou seus quartéis.
Diz, também, meu coração
e confirma, o bater tranquilo
de cada coração amigo,
que é esse o meu amar,
não "aquilo".
Quanto eu amo, não sei.
O que posso dar, já dei.
E não será um anel
ou, até, um pedaço de papel
que dirá ao mundo que te amei.
Ademais,
o mundo, a mim não importa,
ele é mau, pequeno e nada
mais, do que a porta
por onde transito na busca,
na ânsia louca de encontrar,
o caminho, do Verbo Amar.

 


 

MARIA-SEM-VERGONHA

 

Cândida Najar

 

De ser mulher já são tantas, milhares, uma verdadeira
rama, florescendo por todo o planeta lilás
são Maria-sem-vergonha de ser mulher.
Não são só florinhas.
São mulheres se agrupando,
misturando suas cores, gritando seus encantos,
exibindo suas verdades.
São domésticas, bailarinas, artistas,
médicas, estudantes, bancárias,
professoras, escritoras, garis,
brancas, negras, índias,
meninas... agricultoras...

 

São sem-vergonha de lutar,
acreditar, denunciar, exigir, reivindicar, sonhar...
São Maria-sem-vergonha de dizer
que ainda falta trabalho, salário digno, respeito...
Que ainda são vítimas da violência,
da porrada, do assédio, do estupro, do aborto,
da prostituição, da falta de assistência...

 

São Maria-sem-vergonha de se indignar
diante do preconceito, da escravidão, da injustiça,
da discriminação de seus cabelos pixaim
e da sua pele negra...
São Maria-sem-vergonha de brigar
por creches, educação, saúde, moradia, terra e comida,
meio ambiente, pelo direito de ter ou não filhos...

 

São Maria-sem-vergonha de ficar bonita,
pintar a boca e da sua boca soltar um beijo
que não vem da boca, mas de seu ser inteiro,
indivisível, solidário...


São Maria-sem-vergonha de dizer não,
de buscar alegria, prazer...
Sem vergonha de se cuidar,
de usar camisinha e de se apaixonar.
Atrevidas...
Maria-sem-vergonha de decidir,
fazer política, escolher e ser escolhida.

 

São essas sem-vergonha
que a cada tempo mudam a história.
Conquistam direitos;
Dão vida;
Geram outras vidas...
Insistentemente, desavergonhadamente
vão tecendo de cor a beleza,
o desbotado das relações humanas.
Sem medo, sem disfarce, sem vergonha de ser feliz
vão parindo com dores e delícias um novo mundo
para mulheres e homens. Um novo mundo
pra comunidade dos seres humanos, plantas e animais.

 


 

CÉU DE LÁGRIMAS

 

Antonio Carlos de Assis Brasil

 

Choraste...
E as tuas lágrimas
Rolaram pelos meus olhos
E se fizeram estrelas
No céu de minha alma.

 

E nunca mais
Olhei para outro céu
Que não fosse o meu.

 


 

O MOÇO

 

Moacyr José Sacramento

 

Não me perguntem quantos anos tenho, e, sim,
quantas cartas mandei e recebi.
Se mais jovem, se mais velho...o que importa,
se ainda sou um fervilhar de sonhos,
se não carrego o fardo da esperança morta...

 

Não me perguntem quantos anos tenho, e sim,
quantos beijos troquei - beijos de amor!
Se a juventude em mim ainda é festa,
se aproveito de tudo a cada instante,
e se bebo da taça gota a gota...
Ora! Então pouco se me dá quanta gota resta!

 

Não me perguntem quantos anos tenho, mas...
queiram saber de mim se criei filhos,
queiram saber de mim que obras fiz,
queiram saber de mim que amigos tenho,
e se alguém pude eu tornar feliz.

 

Não me perguntem quantos anos tenho, mas...
queiram saber de mim que livros li,
queiram saber de mim por onde andei,
queiram saber de mim quantas histórias,
quantos versos ouvi, quantos cantei.

 

E assim, somente assim, todos vocês,
por mais brancos que estejam meus cabelos,
por mais rugas que vejam em meu rosto,
terão vontade de chamar "O Moço! "

 

E, ao me verem passar aqui...ali...
não saberão ao certo a minha idade,
mas saberão, por certo, que eu vivi!

 


 

POEMA Nº 20

 

Pablo Neruda

 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces, ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Como no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos los últimos versos que yo le escribo.

 


 

FOLHA E FOLHA

 

André Luiz Petra F. de Mello, do livro "Pássaro Urbano"

 

São duas folhas.
Somente duas folhas.
Quando o vento sopra,
apaixonadas, elas se tocam.
Quando o vento acaba,
se separam.
Assim, nesse movimento,
perpetuam a vida:
enquanto uma penetra,
a outra engole;
enquanto uma se esfrega,
a outra afaga.
Por fim, ambas, as folhas,
deliram.
E se uma finda
por se soltar,
levada pelo vento,
até tocar o solo
e se converter em terra,
a outra, solitária,
ainda presa ao galho,
penosamente balança:
e geme, e chora, e grita;
até, enfim, encontrar,
doce e viçosa,
uma nova folha.

 


 

RIFA-SE UM CORAÇÃO

 

Clarice Lispector

 

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque ,que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que ,na realidade , está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconsequente , que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero... ".
Um idealista...um verdadeiro sonhador...

 

Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.

 

Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

 

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

 

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que,quando parar de bater, ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro, na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e se recusa a envelhecer".

 

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro, que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconsequente.

 

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar mas, vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

 


 

MUDE

 

Edson Marques

 

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

 

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

 

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.

 

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

 

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

 

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

 

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

 

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

 

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

 

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

 

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor,
a nova vida.

 

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

 

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

 

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

 

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

 

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

 

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

 

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

 

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

 

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

 

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

 

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!!!!

 


 

AMOR

 

*Bruno Kampel

 

Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.

 

Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.

 

Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.

 

Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.

 

Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.

 

E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.

 

Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.

 

Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.

 

Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.

 

E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.

 

E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,


suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.

 

*Bruno Kampel, reside atualmente na Suécia.

 


 

EU QUERIA

 

Fátima Vieira (escrito em uma época distante da minha adolescência)

 

Eu queira ter uma vida assim com você
Assim sem relógio, sem lei e sem documento,
Sem satisfação a dar e sem choro.

 

Eu queria ter uma vida assim com você,
Mas felizmente meu querer é limitado.
Felizmente porque o bom é a espera, a incerteza e o talvez...
Porque senão a alegria não teria razão
E o chegar não teria partida.

 

Eu queria ter uma vida assim com você
Sem lenço e sem documento,
Mas o bacana é o adeus e a volta
É o riso depois do choro
É o hoje sofrido e o amanhã exuberante.
O bacana é a luta,
É saber que existe o perdão,
É a dúvida do "não quero", "mas quero"...

 

Eu queria ter uma vida assim com você,
Mas dou graças por não tê-la
Porque só assim posso escrever tudo isto.
Só assim posso medir-me
Posso certificar-me da limitação humana.
Só assim sei o quanto lhe quero
O quanto posso,
Mas o quanto não devo.

 


 

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

 

Senhor!
Fazei-me instrumento de Vossa Paz!
Onde houver ódio que eu leve o amor,
Onde houver ofensa que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia que eu leve a união,
Onde houver dúvidas que eu leve a fé,
Onde houver erros que eu leve a verdade,
Onde houver desespero que eu leve a esperança,
Onde houver trsiteza que eu leve a alegria,
Onde houver trevas que eu leve a luz!
Oh Mestre!
Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado,
Compreender, que ser compreendido,
Amar, que ser amado..
Pois é dando que se recebe,
E é perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna.

 


 

SONETOS

 

Luís de camões

 

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

 

É um não querer mais que bem querer
É um solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É um cuidar que se ganha em se perder

 

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade

 

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 


 

PARA ALGUNS SERES ESPECIAIS

 

Madre Teresa de Calcutá

 

Tem sempre presente,
que a pele se enrruga,
que o cabelo se torna branco,
que os dias se convertem em anos,
mas o mais importante não muda !

 

Tua força interior e tuas convicções não tem idade.
Teu espírito é o espanador de qualquer teia de aranha.

 

Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada trunfo, há outro desafio.

 

Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo.
Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amareladas.
Continua, apesar de todos esperarem que abandones.
Não deixes que se enferruje o ferro que há em você.
Faz com que em lugar de pena, te respeitem.

 

Quando pelos anos não consigas correr, trota.
Quando não possas trotar, caminha.
Quando não possas caminhar, usa bengala.
Mas nunca te detenhas !!!!!

 


 

O MEU GURI

 

Chico Buarque/1981

 

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

 

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

 

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

 

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

 


 

APENAS UM HOMEM

 

José Carlos Santana Cardoso

 

Eu sou apenas um homem
Que tenho pressa em ser feliz
Porque o tempo não vai me esperar
Posso parecer forte, mas sei chorar
Posso ser meio desajeitado, e não ter a delicadeza
Mas sei amar, e mudar o conceito
De que homem é insensível e meio rude
Porque um homem é um ser com sentimentos como a mulher
Preciso apenas de uma mulher sensitiva
Que possa explorar o que há em mim
Sem pressa, sem demora
Porque eu sou apenas um homem
E não aceito mudanças repentinas
Que façam eu acreditar que estão me fechando as portas
E eu não vou ter uma saída como refúgio
E não quero ficar como escravo de seu amor
Quero a porta aberta, por onde eu possa voltar
Porque eu sou um homem
E amando, eu não vou debandar
Mesmo que eu olhe para aquela que passa
Estou comparando que não dá para haver troca
E mesmo eu sendo um homem sei me controlar
Há coisas do coração que não dá para dizer
Mas sei demonstrar, e você vai saber notar
Sou somente um amante, um namorado, um amigo
E porque simplesmente eu sou apenas um homem.

 


 

NÓS DOIS

 

Luiz Antonio

 

Queria ter lhe conhecido antes, muito antes...
Para que nenhum de nós dois tivéssemos
medos ou cicatrizes.
Queria ter estado com você,
quando seu coração descobriu o que era AMOR.
Quando seu corpo descobriu o que era DESEJO.
E antes que pudesse sofrer,
eu estaria do seu lado,
lhe amando,
me entregando,
e juntos poder ter aprendido,
as lições da vida e do coração...
Queria ter te conhecido muito antes...
Quando suas esperanças começaram a nascer,
quando seus sonhos ainda eram puros,
e seus ideais ainda ingênuos...
Pena termos nos encontrado só agora,
já com o coração viciado em outros amores,
com uma imagem meio falsa,
do que é felicidade,
do que é entregar-se...
Queria ter lhe encontrado antes,
muito antes...
Numa nova vida,
num outro tempo,
em que não precisássemos temer o nosso futuro,
nem nossos sentimentos...

E nem por isso vou deixar de te querer...

 


 

CONSELHOS DE UM VELHO APAIXONADO

 

Autor desconhecido

 

Quando encontrar alguém e esse alguém
fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção:
pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

 

Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta:
pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

 

Se o toque dos lábios for intenso e se o beijo for apaixonante,
e os olhos se encherem d'água neste momento, perceba:
existe algo mágico entre vocês.

 

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa,
se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça:
Algo do céu te mandou um presente divino:O AMOR.

 

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro
por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso,
um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se:
vocês foram feitos um pro outro.

 

Se por algum motivo você estiver triste,
se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento,
chorar as suas Lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa:
você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

 

Se você conseguir, em pensamento,
sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...

 

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos,
chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

 

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,
ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...

 

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma,
um futuro sem a pessoa ao seu lado...

 

Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e,
assim, tiver a convicção que vai continuar louco por ela...

 

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo:
é o amor que chegou na sua vida.

 

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais
deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio.

 

Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem
cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!!!

 


 

O QUE MAIS DÓI

 

*Patativa do Assaré

 

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.
Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.
O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

 

*Patativa do Assaré é o mais expressivo poeta popular brasileiro, nascido no Sítio Serra de Santana, a 18 Km de Assaré, no Ceará. Tem 6 livros publicados e, aos 92 anos, sabe decorado os milhares de versos que escreveu, ao longo de toda sua vida. Frequentou escola por apenas seis meses e começou a fazer versos influenciado pela literatura de cordel.

 


 

OS DIAS DA COMUNA

 

Bertold Brecht

 

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Considerando que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

 

Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos tomá-lo
Considerando que ele nos aquecerá.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

 

Considerando que o que o governo nos promete sempre
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender -
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!

 

Tradução de Fernando Peixoto

 


 

VERSOS DE AMOR

 

Pegasus - 03.12.2000

 

Versos de amor...
Saídos do fundo da alma...
Escritos com o coração...
Cada frase, cada palavra...
Ora ferindo...
Ora abrandando...
Cala se uma voz...
Inspiração morrendo...
O poeta no mesmo caminho...
Fonte dos seus versos distante...
Fonte dos seus sonhos ausente...
Vazio, vazio...
Tristemente amarga...
Sofre por não poder...
Expressar seus...
Sentimentos que brotaram um dia...
De seu mais profundo...
Íntimo...

 


 

OS TRÊS MAL-AMADOS

 

João Cabral de Melo Neto

 

Joaquim:

 

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

 

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

 

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

 

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

 

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

 

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

 

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

 

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

 

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

 

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

 

 

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

 

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

 


 

PEDEM-ME UM POEMA

 

João Cabral de Melo Neto

 

Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?

 

Um poema se faz vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer o poema ditado
sem vê-lo na folha inscrita?

 

Poema é composição,
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida.

 

Por exemplo, é como um rio,
por exemplo, um Capibaribe,
em suas margens domado
para chegar ao Recife,

 

onde com o Beberibe,
com o Tejipió, Jaboatão,
para fazer o Atlântico,
todos se juntam a mão.

 

Poema é coisa de ver,
é coisa sobre um espaço,
como se vê um Franz Weissman,
como não se ouve um quadrado.

 


 

A INTENÇÃO DO DESPERTAR

 

Túlio

 

Acalma-te coração!
É bom, que devagar venha a aurora!
Não faz mal, que a lua preguiçosa,
o céu não queira deixar!
Ela, e os outros seres da madrugada,
serão testemunhas,
de o nosso inevitável amanhecer!
Acalma-te coração!
Que se faça a luz, devagar!
A natureza das cousas sabe que tempo há!
Para as flores desabrocharem!
Para os frutos amadurecerem!
Acalma-te, não apresse as estações!
Elas têm o vagar, mas também as sabedorias!
Sabem, que os amanheceres adoçam!
E que os entardeceres trazem as cores!
Acalma-te coração!
Amanhece no oriente,
as belezas do dia que vence a noite!
Anoitece no ocidente,
a luz que dá lugar,
ao ameno da noite!
Acalma-te, porque o que nos cabe,
É velar-te, teu descanso ao luar!
É estar pronto, aos cuidados do amor!
É ter nos olhos atentos, a intenção do despertar!

 


 

NAMORAR

 

Artur da Távola

 

Quem namora agrada a Deus. Namorar é a forma bonita de viver um amor.
Não namora quem cobra nem quem desconfia.
Namora, quem lê nos olhos e sente no coração as vontades saborosas do outro.

 

Namora, quem se embeleza em estado de amor. A pele melhora, o olhar com brilho de manhã.
Namora, quem suspira, quem não sabe esperar, mas espera, quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.
Namora, quem ri por bobagem, quem entra em estado de música da Metro, quem sente frios e calores nas horas menos recomendáveis.

 

Não namora quem ofende, quem transforma a relação num inferno, ainda que por amor. Amor às vezes entorta, sabia? E quando acontece, o feito para bom faz-se ruim.
Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro/a apenas para a glória do próprio eu. Não namora quem busca a compreensão para a sua parte ruim. O invejoso/a não namora. Tampouco o violento!

 

Namorados que se prezam têm a sua música. E não temem se derreter quando ela toca. Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem.
Namorados que se prezam gostam de beijo, suspiro, morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no mesmo copo. Apreciam ternurinhas que matam de vergonha fora do namoro ou lhes parecem ridículas nos outros.

 

Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada.
Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados, os de língua, beijo na testa, no seio, na penugem, beijo livre como o pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado. Sem medo nem preconceito.
Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás da orelha no lugar que só ele ou ela conhece.

 

Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo que sempre viu e jamais reparou. Flores, árvores, a santidade, o perdão, Deus, tudo fica mais fácil para quem sabe de verdade o que é namorar.
Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor, tecido do melhor de si mesmo e do outro.
Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e facilidade tudo o que fora do namoro é complicado.

 

Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar"; e quem é capaz de perder tempo, muito tempo, com a mais útil das inutilidades e pensar no ser amado, degustar cada momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias com uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de flores astrais.
Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias, quem aguarda com aflição, o telefone tocar e dá um salto para atendê-lo antes mesmo do primeiro trim.
Namora quem namora, quem à toa chora, quem rememora, quem comemora datas que o outro esqueceu. Namora quem é bom, quem gosta da vida, de nuvem, de rio gelado e de parque de diversões.
Namora quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de amor e quem morre vivendo de amar.

 


 

TER OU NÃO TER NAMORADO

 

Artur da Távola

 

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, de lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiriu, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo, é muito difícil.

 

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a que se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira; basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição.

 

Quem não tem namorado é quem não tem amor: e quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim não pode ter namorado.

 

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou largatixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos de amor com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.

 

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

 

Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

 

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

 

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

 

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilo e medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.

 

Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida passar e de repente parecer que tudo faz sentido: "Enlou-cresça".  

 


 

INSTANTES

 

Don Herold

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

 


 

EU QUISERA QUE TEU CORAÇÃO...

 

Messias - 05.05.1999 (Feita especialmente para mim)

 

Quisera que meu coração,
Fosse igualzinho ao teu,
Receptáculo de fortes emoções,
Jazida de esperança,
Uma mina de tantos carinhos,
Ah.....
Por que você, mulher-menina,
Não cruzou há tempo,
O meu caminho?

 

Quisera que teu coração,
Se tornasse o meu cantinho
Lá, venceria a solidão...
Não me sentiria sozinho,

 

Quisera que teu coração,
Me acolhesse a qualquer hora,
Que evitasse a demora...
De corpo e alma entregar-te
A uma nova e ardente paixão...

 

Quisera que teu coração,
Um reino de encanto,
Onde meus sonhos tantos,
Pudessem se realizar....

 

Quisera que teu coração....
Não fosse tão difícil de convencer,
Que não te quero,
Como uma nuvem passageira....
Te quero pra vida inteira....
Meus olhos anelam te ver...

 

Quisera que meu coração....
Voasse nas asas do vento...
Ventos da minha imaginação...
Penetrar no teu pensamento...
Viver intensamente essa grande emoção:
Saciar a sede de teus sentimentos,
Romper a parede invisível deste universo,
Que faço agora, através de meus versos....
Tudo isto para estar bem perto...
De teu lindo coração.....

 


 

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

 

Eduardo Alves da Costa

 

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite
eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

 

Na segunda noite
já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

 

Até que um dia,
o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a Lua e,
conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta,

 

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer mais nada.

 


 

PALAVRAS

 

Marcelo Henrique - 15.07.99

 

Perdi minha coleção de gentilezas
Lá eu tinha elogios, sorrisos, flores.
Lá eu tinha palavras doces para um coração doente.
Palavras raras,
destas do Bilac e do Camões;
destas do Salomão Ben-Davi e do Augusto dos Anjos;
destas do Ovídio e do Machado.

 

Não sei mais dizer "estou indo"
Sem a minha coleção de gentilezas.
Só me restou: Desculpe! Não posso te ajudar.

 

Não sei mais dizer "te amo"
Sem a minha coleção de gentilezas.
Só me restou: Com licença! Eu preciso passar.

 

Não sei mais dizer "que linda"
Sem a minha coleção de gentilezas.
Só me restou: Por favor! Pode me dizer a hora?

 

Não sei mais dizer "até amanhã "
Sem a minha coleção de gentilezas.
Só me restou: Adeus! Não sei se nos veremos depois.

 

Perdi minha coleção de gentilezas.
Só me restou você,
Meu maior prazer.

 


 

UM BRINDE À VIDA

 

(Desconheço a autoria)

 

Um brinde à vida
E a cada sonho que surge todos os instantes.
Vamos celebrar a vida em sua plenitude
E vivê-la sem medo
Bebendo suas dádivas
E sorrir sem remorso por ter tentado ser feliz.
Vamos entoar um hino em homenagem à luz
E absorver seu brilho
Como uma planta sedenta acolhe a água da chuva que cai aos seus pés.
Vamos fazer das lágrimas que rolam em nossos rostos
Pedras preciosas que brilham e iluminam nossos olhos.
Vamos fazer de cada espinho a esperança de encontrar uma rosa
E de cada dor a possibilidade de um sorriso.
Vamos encarar a vida
Como um presente que deve ser desfrutado
E não como um fardo a ser carregado.
Vamos usufruir da nossa felicidade,
Que ela é de graça e só a nós pertence
E não vamos deixar que nos cobrem por ela.
Vamos sorrir sem medo de mostrar ao mundo
Que somos felizes
Porque não há pecado algum
Em saber aproveitar os presentes
Que Deus nos dá todos os dias.
Vamos simplesmente
Viver.

 


 

OLHAR

 

Francisco Rebêlo

 

Quando teus olhos os meus fitaram
Senti a alegria, senti o amor.
Quando teus olhos me envolveram
Morreu o ódio, morrendo a dor.

 

Senti que um mundo de tristeza
Tombava derrotando o sofredor.
Levando consigo as incertezas
Senti as esperanças renascerem.

 

Quando teus olhos me olhavam
E de amor com os meus brincaram
Um novo sol, no céu apontou
Um mundo de meiguice despertou.

 

Em meu peito uma vontade de amar
Pareceu aos poucos desabrochar
As horas passaram a ser segundos
As horas passaram a ser mundo.

 

Passaram os reis a vagabundos
O mundo sofrido, de rosas se tingiu
Um sonho de amor em mim surgiu
Quando teus olhos os meus fitaram.

 

No horizonte senti o amor nascer
E o que quero?
O que peço, por favor?
É poder em teus meigos olhos
Buscar a paz do meu amor.

 


 

SOY MUJER

 

(Desconheço a autoria)

 

Soy mujer
Y tú eres hombre,
Y lo repito:
Soy mujer
Con mucho orgullo y gracia
Con mucho ritmo,
Y as de ver
Que por ser mujer
Y tú hombre...
Te respeto
Y me respetas,
Te siento
Y me sientes,
Te miro
Y me miras,
Con sencillez y dulzura
Con deseo y amor
Con pasión y sentimiento...
Soy mujer
Y por eso:
Respetando mi cuerpo
Cultivando mi mente
Elevando mi espíritu,
Te respeto
Te siento
Te miro y
Te amo
A través de tu piel
A través de tus ojos
...Tu boca e tu ser...

 


 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

Taunay

 

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, pois o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões. Os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.
Se a confissão nos persegue, as labaredas e as brasas são o alimento, o veneno e o pão, o vinho seco da recordação, dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver...
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, pois o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões. Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser, não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar, não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor...
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam, pois o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões. Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno. Mas o verão que os unirá, ainda, vive e transpira ali, nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera, no insistente perfume de alguma coisa chamada... amor..

 


 

MADRIGAL MELANCÓLICO

 

Manuel Bandeira

 

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

 

O que adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

 

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba o que satisfaz.

 

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

 

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

 


 

NATAL SEM SINOS

 

Manuel Bandeira

 

E que é noite, sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde estão os sinos
Do meu Natal sem sinos?

 

Ah! Meninos sinos
De quando eu menino!

 

Sinos da Boa vista e de Santo Antônio
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

 

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

 

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos!
De quando eu menino
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos que não ouço)
Os sinos de Santa Luzia.

 


 

COMPETIÇÃO

 

Cassiano Ricardo

 

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar. O pássaro é belo.
Muito mais belo é hoje o homem
voar.

 

A lua é bela.
Muito mais bela é uma viagem
lunar.

 

Belo é o abismo.
Muito mais belo o arco da ponte
no ar.

 

A onda é bela.
Muito mais belo é uma mulher
nadar.

 

Bela é a montanha.
Mais belo é o túnel para alguém
passar.

 

Bela é uma nuvem.
Mais belo é vê-la de um último
andar.

 

Belo é o azul.
Mais belo o que Cézanne soube
pintar.

 

 

Porém mais belo
Que o de Cézanne, o azul do teu
olhar.

 

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar.

 


 

FAÇAMOS UM TRATO

 

Mario Benedetti

 

Se alguma vez descobres que olho para teus olhos
e um veio de amor descobres nos meus,
não penses que deliro, pensa simplesmente
que podes contar comigo.

 

Se outras vezes me encontras zangado sem motivo,
não penses que é fraqueza;
assim mesmo podes contar comigo.

 

Mas, façamos um trato,
eu quisera contar contigo.

 

É tão lindo saber que existes,
sente-se vivo e, quando digo isso,
não é para que venhas correndo em meu auxílio.

 

Senão para que saibas que tu
sempre podes contar comigo.

 


 

MEU PAI, MEU AMIGO!

 

Celina H. Weschenfelder

 

Gosto muito de pensar em ti, pai,
porque transmites amor e ternura,
me ajudas a encarar a vida de frente,
confias na minha caminhada,
muitas vezes tão insegura e lenta,
sabes esperar, aguardando confiante.
Eu sei, pai, é por amor à gente!

 

Os anos passam... e enquanto esperas
o embarque do teu filho,
para destinos desconhecidos,
sobes bem alto no mastro e dizes:
"Coragem, meu filho, o tempo
te ensinará tantas coisas,
e em breve estarás de volta;
a travessia é breve e daqui
fico aguardando tua volta".

 

Muitas vezes, situações e pessoas
me deixaram, fora do barco, bem ausente,
mas acredita, pai, nunca te esqueci.
E agora, que te vejo com voz cansada,
mãos calejadas, olhar profundo,
carinho e gratidão se misturam,
pra dizer, mais uma vez, em tom maior:
tu és a melodia mais vibrante,
que me embala e faz feliz, sempre!

 


 

PERDA

 

Fred Livino

 

Caminhei de sobre os montes para os córregos e os vales,
buscando em cada regato a cólera dos males
que nasce do imo a que devora.
Ressuscita, oh indizível espera...

 

Que morta de não ser, ainda atônita exaspera
este pobre ser que não recorda.
Nada de novo há se não quimeras que da louca solidão amarga
dilacera qualquer vestígio de bem que tive agora.

 

Única dor de toda era, fosse este mal que me povoa,
de saber que bem mais podia agora
provar que nunca fui o que eu já era.

 

Morro de não ser se me demora,
esta angústia que em mim ainda chora,
de jamais ver nas mãos o que tivera.

 


 

MID: As time goes by

  

 
 
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