MARIA DE FÁTIMA

 

*Odilon de Carvalho

 

Fevereiro, dezenove,
Após uma luta insana
E de uma cesariana
Vieste à luz, meu anjinho.
Minha netinha querida,
Um pouco de minha vida.

 

Todos nós te esperávamos,
Ansiosos, desejávamos
Que viestes, viva, à luz.
E fomos bem atendidos,
Nossos rogos foram ouvidos,
Por Maria e por Jesus.

 

E neste teu nascimento
Eu tive um pressentimento:
- Eras menina -, e assim
Deveríamos tributar
A Maria te ofertar
Como reconhecimento.

 

MARIA DE FÁTIMA: estás
Concretizando o meu sonho,
Meu viver inda risonho
De vovô que te quer bem.

 

Que sejas feliz na vida,
De teus pais seja querida
E da Mamãe do Céu também.

 

*Meu avô materno, Odilon de Carvalho, era jornalista, escritor e poeta. Muito religioso, quando eu estava para nascer, na Maternidade Cândida Vargas, em João Pessoa e minha mãe sofria muito por não conseguir me ter de parto normal, ele fez uma promessa, aos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima, que lá existe, para que, se tudo corresse bem, me batizarem como Maria de Fátima, em agradecimento.

 



ESTRELA CADENTE

 

Fábio Mozart*

(Para a "Galega")
08/09/2006

 

Mulher de sangue no olho
e com uma flor nos dentes
onça estimuladora
dos sentidos mais latentes

 

invasora dos espaços
dos tímidos inconfidentes
pantera dominadora
amante das mais ardentes

 

Erótica torturadora
que, muito provavelmente,
bailava nos bacanais
dos nobres de antigamente

 

és arco em ponto de guerra
és emoção indecente
entre Eros e Tanato
passeias alegremente

 

bolinando a consciência
gueixa das dores silentes
miragem animalesca
quebrando todas correntes

 

tripudiando o poema
que morre suavemente
antevendo o paraíso
com a ética da serpente

 

mulher de mente plural
que passa tão de repente
sob nuvens de desejos
como uma estrela cadente.

 

* Veja mais poesias na página dedicada a ele.

 


 

À MINHA AMIGA FATINHA

 

Fábio Mozart

 

Conheci minha amiga por inteira,
Restando apenas só uma parcela
Que cobrarei ao me encontrar com ela,

Por ser uma vontade derradeira.

 

Vivendo muito bem à sua maneira,
Fatinha é exclusiva e muito bela,
Colhendo calmaria na procela
E sendo cada vez mais verdadeira.

 

Já faço parte desse seu projeto
Sendo guindado ao posto de arquiteto
De um futuro que vislumbra glória.

 

A vida tem capítulos e fases.
Precisamos, apenas, ser capazes
De unificá-los numa só história.

 


 

O CHOCOLATE

 

Fábio Mozart

 

Pra minha amiga Fatinha,

Um recado: não me mate!

Fico todo arrepiado

Quando fala em chocolate!

 

O médico já proibiu

De comer a guloseima

Mas a minha "criatura"

Não sabe disso e teima

 

Em saborear da "fruta"

Que é doce como mamão...

Sei que um dia morro disso

Mas não largo o "vício" não!


 

POEMA DE  JUAN LESSAN

Por fora tenho tantos anos que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos, e me acho mais bonita.
Por fora, óculos; algumas rugas, gordurinhas, prata nos tintos cabelos
Por dentro sou dourada, alma imaculada, corpo de modelo.
Por fora, em aluviões, batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas, filosofia e amigos sem despeito.
Por dentro, sei me cuidar, vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
Não me oprime a saudade;
Não me demoro padecente.
E é por viver contente que concluo sem demora:
É a menina que vive por dentro,
Que alegra a mulher de fora!

 



CAETANO VELOSO:

 

Um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso.

 

Autor: Antonio Barreto, natural de Santa Bárbara-BA.

 

 

Eu já estava estressado
Temendo até por vingança.
Meus alunos na escola
Leitores da ‘cordelança’
E a galera em geral
Sempre a me fazer cobrança.

Todo mundo me acusando
De cordelista medroso
Omisso, conservador
Educador preguiçoso
Por não me pronunciar
Sobre Caetano Veloso.

Logo eu, trabalhador,
Um pouco alfabetizado
Baiano de Santa Bárbara
Sertanejo antenado
Acima de tudo um forte...
E por que ficar calado?

Resolvi tomar coragem
E entrei logo em ação.
Fui dialogar com o povo
E colher a opinião
Se Caetano está correto
Ou merece punição.

Lápis e papel na mão
Comecei a anotar
Tudo em versos de cordel
Da cultura popular
A respeito de Caetano
Conforme vou relatar.

— Artista santo-amarense
Amante da burguesia
Esse baiano arrogante
Cheio de filobostia
Discrimina o presidente
Esbanjando ironia. 
 

— Caro artista prepotente
Tenha mais discernimento.
Seja um Chico Buarque
Seja Milton Nascimento
Seja a luz do Raul Seixas
Deixe de ser rabugento.

 

— O Caetano deveria
Ser modesto e mais gentil
Porém o seu narcisismo
Que não é nada sutil
Faz dele um homem frustrado
Por ser bem menor que Gil.

— Seu comportamento vil
É algo de outra vida
Ele insiste em muitos erros
Não cura sua ferida
Por isso sua falação
É de alma involuída.

— Caetano é um arrogante
Partidário da exclusão
O que ele fez com Lula
Faz com qualquer cidadão
Sobretudo gente humilde
Que não tem diplomação.

— Por que este cidadão
( o Caetano escleroso )
Não criticou Figueiredo
Presidente desastroso ?
Além de aproveitador
O Caetano é medroso.

— Esse Cae que ora vejo
Não representa a Bahia.
Ser o chefe da Nação
Esse invejoso queria
Mas a sua paranóia
Pouco a pouco lhe atrofia.

 

— Já pensou se o Caetano
Fosse então educador ?!
“Mataria” os seus alunos
Pela falta de pudor
Pela discriminação
Pelo brio de ditador.
 

— Ele não leu Marcos Bagno
Pois é leitor displicente.
Seu preconceito lingüístico
Contra o nosso presidente
Discrimina Santo Amaro
Terra de Assis Valente.

— Ele ofende até os mortos:
Paulo Freire, Gonzagão
Patativa do Assaré
O Catulo da Paixão
Ivone Lara, Cartola
Pixinguinha, Jamelão...

— Caetano é um imbecil
Da ditadura um amante.
Um artista egocêntrico
Decadente ambulante
Se julga intelectual
Mas é mesmo arrogante.

— A Bahia está de luto
Diante da piração
Desse artista rabugento
Que adora a exclusão,
Vaca profana, ególatra
Que quer chamar a atenção.

— Vai de reto, Caetanaz
Pega o Menino do Rio
Garoto alfabetizado
Que te provoca arrepio.
Esse sim, não é grosseiro
Nem cafona pro teu cio.

— Um burguês reacionário
Que odeia a pobreza.
Ele não gosta de negro
E só vive na moleza.
Sempre foi um lambe-botas
Do Toninho Malvadeza.

— Vou atender meu cachorro
Pois é algo salutar
Muito mais que prazeroso
Que parar pra escutar
O Caetano elitista
Que começa a definhar.

 

— Certamente o Caetano
Esqueceu do Gardenal.
Bem na hora da entrevista
Lá se foi o bom astral
Desandou no Estadão
Dando um show de besteiral !

 

— Caetano ‘Cardoso’ segue
Sempre a favor do “vento”
Por entre fotos e nomes
Sem lenço nem argumento
Vivendo só do passado,
Cada vez mais ciumento.

— Eu respeito a sua arte
Mas preciso declarar
Que quando não tá na mídia
Cae começa a atacar
Sobre tudo as pessoas
De origem popular.

— O Caetano gosta mesmo
É de gente diplomada:
Serra, Aécio, Jereissati,
Toda tribo elitizada...
Bajulou FHC
Que fez muita trapalhada.

— O Caetano discrimina
Pois está enciumado.
Na verdade, o nosso Lula
É um homem educado.
Um nordestino sensível
Muito mais que antenado.

— Dona Canô, com 100 anos
Não perdeu a lucidez.
Mas seu filho Caetano
Ficou pirado de vez
Transformando-se num “cara”
De profunda insensatez.

— Ofendeu Marina Silva
— Através do Silogismo
Mistura de Lula e Obama
Logo quer dizer racismo:
Mulher cafona, grosseira
Analfabeta – que abismo!

Adoro Mabel Veloso,
Betânia, dona Canô...
Para toda essa família
Meu carinho, meu alô.
Mas o mestre Caetanaz
Já está borocoxô!

É proibido proibir
O cordelista versar
Pois conforme disse Cae
“Gente é para brilhar”.
Então permita ao poeta
Liberdade de pensar.

Brasileiros, brasileiras
A Bahia está de luto.
Racistas em nossa terra
Radicalmente eu refuto.
Estamos envergonhados,
Todos fomos humilhados
Oh Caetano ‘involuto’.

FIM
 

Salvador, triste primavera de 2009



 

QUARTA- FEIRA

 

Luiz Alberto Machado

 

A festa acabou
E não houve nenhum barulho na madrugada

A rua está pesunhada em honra de Pã
Homenagem a Baco

A festa do povo passou

Neste dia
Eu te ofereço minha carne em holocausto
Neste luar que azula a escuridão

As ruas do pretérito caboclinho do Rabeca
O reluzente estandarte da Virgem Guadalupe
E a extinção de Tupác Amaru
Até sua descendência em quarto grau

Tudo apaixonadamente vivo
Tudo delirantemente sentido
Tudo escandalosamente passado a limpo

Contaminados se foram os cultores do pecado original
Do hedonismo
E do rig-veda

Hoje o morto carrega o vivo
E ontem de noite correu bicho em Matriz de Camaragibe
E anteontem o bufo inspirou Zé da Justa pra afinar a orquestra
E a Fubana dos artistas, varrida de sonhos,
Impetrava um calor nas reentrâncias das senhoras

E a folia fez-se noite
E a folia fez-se dia

Permita Deus
Este mês seja só carnaval

Dentro de mim passou a folia do planeta
Com seus trogloditas modernos
E o assoalho é só excrementos da festa

Da casa vazia
O reino dos fantasmas

Saia do sereno,
Saia do sereno,
Saia do sereno que esta frieza faz mal

Então o silêncio
E o meu sacrifício de Odin:
Apenas água para beber
E braços solidários

Tudo cinzas

E não fiz abstinência da carne
Nem interdição dos sentidos

A minha impulsividade e o suntuoso e o inexprimível
Um dia tão grande no desvario do frevo

Não quero penitência
Estou debilitado pelo incenso inebriante de mulher
Que dorme oculta no deleite do meu travesseiro

Tudo viverá enquanto meu verso existir
O bar, a noite, o cigarro e a solidão

O poeta morreu terça-feira
E eu sigo inquieto
O amor assim que deveria ser: a vida!

 


 

O AMEAÇADO

 

Jorge Luís Borges

 

É o amor. Terei de me esconder ou fugir.
Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz.

A bela máscara mudou, mas como sempre é a única.

De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, o aprendizado das palavras que usou o vago norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto dos sonhos?

Estar ou não contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levanta o homem à voz da ave, já escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.

É, eu sei, é o amor:
a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória,
o horror de viver o sucessivo.
é o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.

Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
agora os exércitos me cercam, as hordas.
(este quarto é irreal; ela não o viu.)

O nome de uma mulher me delata.
doí-me uma mulher por todo o corpo.


 

FRUTOS E FLORES

 

Marina Colasanti

 

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.

 


 

ESCONDIDA TAMBAÚ

 

José Virgolino de Alencar

 

Ah! essa ânsia de contemplar-te Tambaú;
Os espigões, arranhando o céu, não deixam,
As torres, como florestas, se enfeixam,
Vendam meus olhos, não vejo teu mar azul.

 

Ah! exuberante Tambaú, do cone sul a rainha.
Tuas águas, para a vista, manhosamente se fecham,
Meus olhos, tristes, lacrimejantes, se queixam.
Para ver-te, não há sequer uma frestinha.

 

O céu claro, sem nuvens, é límpido, fascinante;
O sol brilha forte, caloroso, intensamente,
Temperando um clima de amor ardente;
Acima do mar aberto tudo é belo, esfusiante,

 

Mas, tuas águas azuis, ondas mansas, não as vejo,
Um vendaval revolve, redemoinha na mente;
Doi não poder ver o cenário inteiramente.
Tambaú! De apreciar-te, frustra-se meu ansioso desejo.

 


 

PARAIBANIZANDO

 

Carlos Silva

 

Rio do Peixe abençoado por São João
Rio Piranhas teu protetor é São José
Monte Horebe tua serra é um aviso
Deste povo bonito de Santa Fé

 

Cachoeira orgulho dos teus índios
Bom Jesus admirando as cajazeiras
Santa Helena com seu manto protetor
Em São Bento zelando as mangabeiras

 

No sinal da Santa Cruz santificada
Nesta terra germina a cultura
Com o brilho da luz de diamante
Ilumina no ser Boa Ventura

 

Pelos olhos a bendita Conceição

Alumia o povo d'uma vez só
Pelo vale que estende nesse olhar
Alcançando de Ibiara a Piancó

 

Paraíba teu reinado é infinito

Feito sonho reservado na capanga
E com nome tão duro feito pedra
Erigiu tua extensa Itaporanga

 

Em cor cinza eu vi a vegetação

E a espera por uma manhã chuvosa
Vi o riso estampado do teu povo
Pela fé e pela paz tão corajosa

 

Vi o símbolo que tremula tuas cores

Ao dizer "NÉGO", assumiu tua coragem
Com postura soberana se fez livre
Sem trair dos teus filhos bela imagem

 

No martelo ou na glosa do poeta

Neste berço que pariu o cantador
No ponteio do repente nordestino
Dedicado a ti com vasto amor

 

Sob o clarear da lua seresteira
Cá ti deixo Paraíba, sem vontade
Te levando num versar de cantoria
Preservando um sentimento de saudade

 

Este texto é uma simples homenagem ao povo paraibano, pela acolhida deste estradeiro cantador, CARLOS SILVA.

 


 

PARA OS MESTRES, COM DESRESPEITO

 

Alberto da Cunha Melo

 

Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo

é uma grande força insultada.

 

Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.

 

Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.

 

Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.

 

Eu digo que meu povo

é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.

 

Do livro SOMA DOS SUMOS, de 1983, publicado pela Editora José Olympio e Fundarpe.

 


 

DEPOIS DE UM TEMPO

 

Veronica Shoffstall

 

Depois de um tempo você aprende
a sutil diferença entre
segurar uma mão e acorrentar uma alma
e você aprende
que amar não significa apoiar-se
e companhia não quer sempre dizer segurança
e você começa a aprender
que beijos não são contratos
e presentes não são promessas
e você começa a aceitar suas derrotas
com sua cabeça erguida e seus olhos adiante
com a graça de mulher, não a tristeza de uma criança.
E você aprende
a construir todas as estradas hoje
porque o terreno de amanhã é
demasiado incerto para planos
e futuros têm o hábito de cair
no meio do vôo.
Depois de um tempo você aprende
que até mesmo a luz do sol queima
se você a tiver demais
então você planta seu próprio jardim
e enfeita sua própria alma
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que você realmente pode resistir
você realmente é forte
você realmente tem valor
e você aprende
e você aprende
com cada adeus, você aprende.

 


 

POEMA DA AMANTE

 

Adalgisa Nery

 

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

 

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

 

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

 

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

 

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

 

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

 


 

AVISO DA LUA QUE MENSTRUA

 

Elisa Lucinda

 

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

 

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

 

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

 

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

 

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

 

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas

 

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

 

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.

 

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.

 

Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.

 

É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

 

Você que não sabe onde está sua cueca?

 

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

 

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

 

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.

 

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

 

Tá, não, homem.

 

Tá citando o princípio do mundo!

 


 

LIBERDADE

 

Paul Eluard
Traduzido por Jorge de Sena

 

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

 

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

 

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

 

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

 

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

 

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

 

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

 

No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

 

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

 

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

 

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

 

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

 

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

 

No trampolim desta porta
nos objetos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

 

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

 

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

 

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

 

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

 

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Pelo poder duma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te
liberdade.

 


 

DE CARA LAVADA

 

Martha Medeiros

 

ficas mais distante, cada dia
cada noite, mais ausente
mais idoso, cada mês
cada instante, mais alheio
cada beijo, mais decente
mais fumante, cada ano
cada encontro, mais estranho
mais sofrido, cada vez
mais dolorido, mais parente
menos meu

 

quem é você dentro de mim
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo minha mala
que não reconhece minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia

 


 

DE CARA LAVADA – 177

 

Martha Medeiros

 

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

 

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

 

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

 

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

 

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

 

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

 


 

SERRA GRANDE FEITICEIRA

 

*Miguel Arraes de Alencar

 

Serra grande de olhos verdes
Por que me chamas para o lado de lá?
Deixa que eu fique aqui bem quieto
Com meu bodoque, meu samburá

 

Cavalo de pau, gado de osso
Corridas sem fim na terra quente
Céu limpo, urubus bem altos
Purificados pela distância

 

Serra grande enganosa
Por que me chamas e não me amas?
Milhares pisaram teu dorso quente
Teu manto verde como a esperança

 

Fugiam da fome, corriam do medo
Comeram mandioca, roeram piquí
Teu chão se abriu para os receber
E tu, enganosa, fingindo bondade, salvaste alguns

 

Serra grande, feiticeira
Já não resisto ao teu olhar
Se é que me amas, por que não me dizes?
O que tens do lado de lá?

 

Toma meu bodoque, meu samburá
Será minha sorte, será meu penar?
Serra grande, dona do tempo
Se não me dizes deixa eu passar

 

Vou pra bem longe, pra outras terras
Pra meu destino, pra meu penar.

 

*Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916, em Araripe, Ceará. Concluiu o curso secundário em 1932, na cidade do Crato. Em seguida, mudou-se para o Recife para dar continuidade aos estudos e seguir carreira profissional, prestando concurso público e tornando-se, em 1933, funcionário do Instituto de Açúcar e do Álcool (IAA). Estudou na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1937 e continuando a carreira de servidor público.

 

Foi Delegado Regional do IAA, nomeado por Barbosa Lima Sobrinho. Arraes iniciou sua carreira política em 1948, ocupando o cargo de secretário estadual da Fazenda, durante o governo de Barbosa Lima Sobrinho. Em 1950, elegeu-se deputado estadual. Em 1958, conquista novamente uma vaga na Assembléia Legislativa de Pernambuco. Em 1959, foi secretário da Fazenda no governo de Cid Sampaio e prefeito da cidade do Recife.

 

Em 1962, Arraes foi eleito pela primeira vez governador de Pernambuco, porém não concluiu o mandato sendo deposto pelo Golpe Militar. Teve passagens por algumas prisões brasileiras, seguindo para a Argélia em 25 de maio de 1965. Após 14 anos de exílio, voltou ao Brasil beneficiado pela anistia. Foi eleito deputado federal em 1982 e, em 1986, elegeu-se mais uma vez governador de Pernambuco. Em 1990, foi novamente deputado federal. Em 1994, voltou ao governo de Pernambuco pela terceira vez. Em 2003, assumiu mais um mandato como deputado federal. Faleceu no Recife, no dia 13 de agosto de 2005, vítima de uma infecção generalizada.

 


 

LIBERTAÇÃO

 

Wilma Lessa*

 

Minha liberdade
Posso medir
Menos por ir e vir, a todos os lugares
O infinito possível.

 

Mas por estar só
Destituída de paixões
Que acorrentam
Ao cotidiano
De apenas um.

 

Liberdade pura
Da cama enorme
Louça empilhada
Jornais espalhados
Priorizando o que eu quiser,
Pois minhas asas
Estão abertas ao infinito.

 

*Wilma Lessa foi uma grande defensora dos direitos das mulheres, fundou o Grupo Viva Mulher e fez parte da Comissão que implantou a Delegacia da Mulher em Pernambuco. Wilma lutou, com muitas companheiras do Fórum de Mulheres de Pernambuco para ver as mulheres brasileiras vivendo em condições dignas, com respeito e direitos assegurados.
Fonte:
www.sindromedeestocolmo.com

 


 

UMA CRIATURA

 

Machado de Assis

 

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

 

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

 

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

 

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

 

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

 

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo,
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

 

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

 

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte: eu direi que é a Vida.

 


 

ORGIA DE INOCÊNCIA

 

Ivan Santtana

 

Boboletas
Meretrizes
Fazem programa
No jardim.

 

Tão promíscuos,
Os beija-flores
Beijam rosas,
Beijam dálias,
Beijam jasmins.

 

Todo dia é assim:
Uma orgia de inocência
No meu jardim.

 


 

SONHEI COMIGO

 

Eugênia Tabosa

 

Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

 


 

SE

 

Waltel Branco e Alice Ruiz

 

Se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer,
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso,
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo,
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí, vá ficando por aí,
eu vou ficando por aqui,
evitando, desviando,
sempre pensando,
se por acaso a gente se cruzasse.

 


 

VOU TIRAR VOCÊ DO DICIONÁRIO

 

Itamar Assumpção e Alice Ruiz

 

Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocar-lá em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
"Tudo que você disser
deve fazer bem
Nada que você comer
deve fazer mal"
"Eu quero as mulheres
que dizem sim
E quem não tem vergonha
de ser assim? "

 


 

MAIS OU MENOS

 

Chico Xavier

 

A gente pode
morar numa casa mais ou menos,
numa rua mais ou menos,
numa cidade mais ou menos,
e até ter um governo mais ou menos.

 

A gente pode
dormir numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos,
ter um transporte mais ou menos,
e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.

 

A gente pode
olhar em volta e sentir que tudo está
mais ou menos.

 

Tudo bem.

 

O que a gente não pode
mesmo, nunca, de jeito nenhum,
é amar mais ou menos,
é sonhar mais ou menos,
é ser amigo mais ou menos,
é namorar mais ou menos,
é ter fé mais ou menos,
e acreditar mais ou menos.

 

Senão a gente corre o risco de se tornar
uma pessoa mais ou menos.

 


 

AS ROSAS NÃO FALAM

 

Cartola

 

Bate outra vez
Com esperança o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim

 

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim

 

Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

 

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhar com meus sonhos
Por fim

 


 

O MARRUÊRO

 

Catulo da Paixão Cearense

 

O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...

 

Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!

 

O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

 

Lá, no fundo d'uma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.

 

Uma araponga, atrepada
n'um braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dô!!

 

E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!

 

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!

 

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
n'um véio tronco de ipê.

 

Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!

 

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...

 

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.

 

Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!

 

O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!

 

Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!

 

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio d'uma muié...

 


 

AINDA EU TENHO...

 

Pepe

 

Quando eu era jovem e me embriagava
Com ilusões das quais hoje rio
Sonhei ser dono de grandes terras
E hoje tenho um pedaço de terra meu!...

 

Logo a vida que ensina tanto,
Acalmou todo meu desvario
Mas se no caminho perdi as terras
Ainda tenho um pedaço de terra meu!

 

Um pedaço de terra ingrato,
Ao pé de um muro sombrio,
É a terra que cobre a sepultura
Onde enterrei um filho meu...

 

Em ele jazem meus sonhos
De amor, glória ou poderio,
E ante os céus e os homens
Aquele pedaço de terra é meu!!!

 


 

AMÔ DE REDE

Myriam Peres

 

Amô de rede é bão.
É bão mesmo pra daná.
A gente fica agarrado,
Fica tudo atracado,
E a rede pra lá, pra cá...
E o Zeca só a pitá...

 

É uma fuxicada arretada,
Que num sei mesmo explicá.
São fungada nos cangote,
São alisado pra cá.
São uns roçado pra lá.
E o Zeca só a pitá...

 

Êta pitada lascada,
Tão boa de se pitá!
A gente nesta esfregada,
Virando os ôio danada.
A rede pra lá, pra cá...
E o Zeca só a pitá...

 

Num dá mais pros cafuné,
Pros suspirinhos inté,
Só dá é pros afiná.
Fica tudo sem dá pé.
"Vige Maria da Fé "!
Salve-se quem pudé...

 

Fica tudo embolado.
Fica uma confusão.
Na rede é muito dificil,
Mas é pra lá de bão...
Não quero outra vida, não.
A rede pra lá, pra cá...
E o Zeca só a pitá...

 

Quando chega mais adiante,
Dessa baderna inferná,
Tá todo mundo cansado,
E eu, cum os ôio arregalado,
De tanto me arrepiá.
A rede pra lá, pra cá...
E o Zeca só a pitá...

 

Nessa embolada gostosa.
Nesses suspiro ideá.
Sem podê se alevantá.
Caimos nos dois no sono,
Pra tentá nos descansá.
A rede pra lá, pra cá...
E o Zeca parou de pitá...


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